Topografias da Memória
A pintura de Tito Flavio investiga a imagem como território de encontro entre memória e imaginação. As figuras que atravessam sua obra surgem como presenças evocativas, capazes de ativar atmosferas emocionais que ultrapassam a identidade representada.
Nas paisagens, situadas entre figuração e abstração, o artista constrói espaços onde lembrança e sensação permanecem em transformação. Observadas de perto, as pinceladas que formam os retratos já anunciam campos de cor e horizontes.
O que à distância é figura, de perto revela-se território.
Andréa Dall’Olio Hiluy
Curadora de arte
As imagens de que somos feitos
Olhamos para o mundo uma vez,
na infância.
O resto é memória.
Louise Gluck
À primeira vista, as pinturas de Tito Flávio parecem anunciar a que vieram. Em termos históricos, é possível classificá-las em dois gêneros: retratos e abstrações, que o artista denomina como paisagens abstratas. Todavia, apesar do conhecimento acumulado em arte ao longo dos séculos, o que mais interessa em um trabalho é o elemento estranho, incerto — a força que provoca um solavanco e abre um espaço que conduz a um lugar inesperado. É justamente essa via, a da possibilidade da surpresa e de uma leitura inesperada da obra, que torna o mundo da arte instigante.
Como professora de história da arte (com o tempo acrescentei o plural, pois de fato são infinitas as histórias e perspectivas que compõem esse universo), compreendi que em tudo o que é produzido há uma historicidade, um repertório de referências. Recebemos legados, realizamos apropriações e, dessa forma, rompemos com uma temporalidade linear. Ressignificamos.
Olhando em retrospecto a trajetória de Tito Flávio, recordo-me de como ele me contou, há alguns anos, com um brilho no olhar, sobre sua experiência de captura estética diante de uma pessoa que, de forma célere, buscava materializar uma pintura no estilo de Claude Monet. Para ele, foi um instante de magnetismo. Um instante que continuou. Pois é disso que se trata: de uma experiência fundante, de algo que não nos abandona. É preciso dar um direcionamento ao que insiste em nós. E Tito Flávio tomou o bastão para si, dando continuidade a uma história que captou. Desde então, ele pinta.
Costumo repetir uma afirmação de Joseph Beuys nas aulas que coordeno: todos nós somos artistas. Ser artista não consiste exatamente em domínio técnico, mas em atualizar experiências, em restaurar o mundo a partir da importância que lhe atribuímos. Ser artista é olhar como se fosse a primeira vez. É retirar a casca das coisas. É ver um clichê, como um pôr do sol, e procurar dizê-lo de uma forma que seja só sua.
E há algo mais nosso do que os álbuns de família? Reabrir suas páginas é revisitar a própria história. Um passeio por fotografias de família é um percurso por um imaginário construído a partir de vínculos de intimidade: pai, mãe, irmãos. Rememora-se o passado documentado para que o presente se expanda. A memória, afinal, é tecida nas fibras do afeto. É composta, sim, pelo que perdemos, mas igualmente sobrevive pelo o que não nos abandonou.
O olhar desejante do artista elege o que contar. O retrato de figuras históricas, como o Papa Francisco, Patativa do Assaré ou Lampião, convive com vaqueiros e pescadores que compõem o imaginário particular do artista. As pinturas de Tito Flávio retomam algo que o tratado de Leonardo da Vinci já ressaltava: há um poder na mancha. Há um microcosmo contido nas camadas. Dessa forma, os retratos mostram, à primeira vista, figuras — muitas conhecidas por nós —, mas também destacam o fulgor do detalhe.
Em arte, o detalhe importa. Os detalhes são como pontos de luz, que o artista preza incluir nos trabalhos em que desenvolve suas paisagens abstratas. Pontos de luz como vaga-lumes que anunciam esperança na escuridão.
O que vem tocar o olhar de quem observa a pintura? Quando acreditamos ver a imagem, estamos, de fato, sendo olhados.
Minha avó tinha uma fotografia do ator Clint Eastwood pregada na porta do guarda-roupa. Toda vez que ela a abria, meus olhos curiosos de criança encontravam a imagem do ator, nos seus primeiros faroestes, com chapéu de cowboy e fumando seu cigarro artesanal. Foi essa imagem que Tito Flávio elegeu para iniciar a série, pois traz uma forte recordação: ele, ainda menino, assistindo a um filme de Clint Eastwood ao lado do pai.
À primeira vista, as pinturas de Tito Flávio parecem anunciar a que vieram. Mas reduzi-las a classificações é dizer pouco sobre elas. Aos visitantes da exposição, é necessário que se deem um tempo generoso para olhar. Como se fosse a primeira vez. Achar um detalhe que, inesperadamente, poderá abrir uma porta que conduza às próprias memórias afetivas.
Ana Valeska Maia Magalhães
Psicanalista e
Professora de História da Arte


